A vizinha do quarto andar sabe que vou viajar e perguntou-me se eu não me cansava do movimento, fez a pergunta sem conseguir evitar um tom de reprovação gentil, a condescendência dos anos perante a inquietude dos mais novos, queria responder-lhe, mas pensei se era possível estar quieto como uma rocha, não será o movimento a natureza fundamental das coisas e todo o carácter estático dos objectos apenas uma ilusão, Heraclito dizia há dois mil anos que não podes tomar banho duas vezes no mesmo rio, que tudo é devir, Buda há mais tempo dizia que tudo é impermanência e vazio, se eu ficasse quieto e não lhe respondesse não continuaria o meu coração em movimento, e se este parasse não seria a minha quietude traída pelos ponteiros do meu relógio, deste e de todos os relógios do mundo que nos impedem de ficarmos quietos no passado, mundo este que cruza o espaço a velocidades inimagináveis com todos os outros planetas e estrelas, posso olhar para uma cadeira e pensar que ela está quieta mas se eu lhe deitar fogo não se transformará ela em cinza, como é que algo que não consegue permanecer pode estar quieto, toda a minha vida estive em movimento e quando morrer não vou parar porque não posso, porque me vou transformar em terra ou em fumo, e depois noutras tantas coisas como árvores ou nuvens, nem sequer as rochas estão quietas, elas movem-se só que muito devagarinho, tudo é movimento, é a nossa natureza fundamental, por isso sorri-lhe e disse, não, não me canso, e fui-me embora...
sábado, 27 de junho de 2009
O movimento...
Sussurada por
Rui Gil
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