domingo, 28 de junho de 2009

A poesia das partidas

«Num ensaio sobre o poeta, T.S. Eliot sugeria que Baudelaire foi o primeiro artista do século XIX que soube dar expressão à beleza dos lugares de passagem e dos meios de transporte: Baudelaire... inventou uma nova espécie de nostalgia romântica, escreveu Eliot, a poésie des départs, a poésie des salles d'attente.
(...) 
Por vezes Baudelaire sonhava ir a Lisboa. Aí faria mais calor e ele, estendido ao sol, como um lagarto, ganharia novo vigor. Era uma cidade de água, mármore e luz, propícia ao pensamento e à serenidade. Mas mal acarinhara ainda esta fantasia portuguesa, logo se punha a pensar que talvez fosse mais feliz na Holanda. E, afinal porque não em Java, ou também no Báltico e ainda no Polo Norte ! (...) O Essencial não era o destino da viagem. O verdadeiro desejo era o de ir-se embora, como de resto Baudelaire concluía: Qualquer sítio! Qualquer sítio! Contanto que seja fora deste mundo!»

Alain de Botton in A Arte de Viajar.

Aparentemente as influências de Baudelaire, devem ter encontrado ouvidos na cultura portuguesa, senão do que falava Agostinho da Silva quando se referia «à poesia da vadiagem» ? Ou o que queria dizer António Variações quando cantava «Só quero ir onde não vou»?

É sempre o mesmo espírito, partir, atracção pelos lugares de passagem, pelos quartos de hotel, por um efémero que ao retirar-nos o conforto de uma casa, nos põe em contacto com a uma solidão existencialista... Edward Hopper, sabia-o bem. É como se o permanente movimento, conseguisse pôr a realidade em perspectiva, torná-la relativa, e esse vazio, essa solidão, despisse os preconceitos impostos pelo quotidiano e criasse as condições para um contacto mais genuíno com o mundo...

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